quinta-feira, 23 de junho de 2011

Festival Silêncio, 2

Mais algumas fotografias do espectáculo, integrado no Festival Silêncio, de José Mário Branco e Camané no cinema S. Jorge no passado dia 15 de Junho:



Como referido em post anterior, boas fotos podem ser encontradas em http://www.flickr.com/photos/ponto-alternativo/sets/72157626850719075/show/.

domingo, 19 de junho de 2011

António Marques - filmes, 1





No final dos anos 80 procuramos organizar uma homenagem (singela) ao Marques, que nos havia deixado em 1986; a ideia era fazer uma projecção de 6 dos seus filmes – o local seria a sede dos Sindicatos em Mem Martins –, acompanhados da distribuição de uma pequena brochura que reunisse algumas notas sobre os seus trabalhos cinematográficos. Ainda fizemos uma ou duas reuniões, com o Joaquim Vieira, o Carlos Peralta e o Vítor Silva, mas não se passou daí.
Passaram entretanto mais de 20 anos, perdemos todos os contactos uns dos outros, mas nunca deixamos de pensar no Marques e na oportunidade de lembrar a sua memória. O texto que segue foi escrito nessa altura.




Não é fácil recordar um companheiro desaparecido resistindo ao lugar-comum: exaltar as suas motivações, as qualidades ou os defeitos, perdoar ou acusar, tirar conclusões sobre uma vida.
Procura-se aqui evocar um amigo, revendo parte da nossa caminhada comum, da qual são património os trabalhos que nos deixou.
Os filmes de António Marques reflectem a maneira de estar na vida de um homem solidário, lutador e inconformista; são frutos de um olhar profundo sobre os problemas das camadas mais oprimidas e humildes da comunidade, pretendendo fazer a sua denúncia e, por vezes, apontando rumos sobre os quais não faz sentido discutir da sua correcção (muito menos hoje). São também a visão de um homem que procurou encontrar-se consigo próprio e com os outros, e que não teve tempo de levar mais adiante a consolidação de um trabalho.
Contra muitas circunstâncias adversas, enfrentando muitas incompreensões, nunca baixou os braços, ao contrário conseguindo transmitir aos que o rodearam o ânimo e a força indispensáveis à concretização de alguns projectos.
Abril.2011





1. FILMOGRAFIA




FLORES E SOSSEGO1970/1973, montado em 1975
P&B, 60 minutos
Documentário sobre o processo de adaptação da vila de Óbidos à indústria de exploração turística e subsequente abandono da tradicional actividade produtiva e afastamento dos antigos habitantes.

1º. DE MAIO NA VILA
1974, P&B, 22 minutos
Reportagem crítica do 1.º de Maio de 1974.
Rodado em 1 de Maio de 1974 na Vila de Sintra. Projectado sem montagem em sessões políticas logo em 1974.

VÍTIMAS DO CAPITALISMO - CASAS SIM BARRACAS NÃO1974, P&B, 24 minutos, sem som
Documentário sobre um bairro de lata do concelho de Sintra.

ATÉ QUE UM DIA O POVO1976, P&B, película reversível, 56 minutos, sem som
Documentário sobre os problemas da população residente e trabalhadora no concelho de Sintra.
Foi realizado para servir de suporte à campanha eleitoral dos GDUP para as eleições autárquicas de 1976.


Imagens (ordem descendente): 1 e 2 - Filmagens de "Até que um dia o povo" - pedreira da Barrosa, Nov.1976 + 3 e 4 - Notas para montagem e legendagem 1976 + 5 e 6 - Notas para guião, 1976


A DANÇA DA VIDA1976, P&B, 12 minutos
Documentário de apresentação dos trabalhos de um escultor popular de Óbidos - Albino d’Óbidos -, subordinados ao tema da exploração do homem pelo homem.

Imagens (ordem descendente): 1 - Capa da publicação "Quem é Albino d'Óbidos" + 2 e 3 - Excerto da mesma publicação + 4 - Capa da publicação de Albino d'Óbidos "Os nossos poemas hão-de voltar"



POR CADA CAMARADA MORTO MIL SE LEVANTARÃO1976, P&B e Cor, 12 minutos
Reportagem sobre o funeral do Padre Max e de Maria de Lurdes, vítimas de um atentado bombista em Vila Real (Abril de 1976).
O filme apresenta também no seu final uma montagem de fotografias alusivas, perfazendo assim a duração total de 20 minutos.
Imagens (ordem descendente): 1 - Cartaz da UDP sobre o homicídio do Padre Max+ 2 -Autocolante, idem



FESTA NA ALDEIA DO PENEDO1978, P&B, 30 minutos
Documentário de cariz etnográfico focando as festas do Espírito Santo na aldeia do Penedo (Colares, Serra de Sintra) ocorridas em 1978. Foi remontado em 1980 com novas imagens colhidas nas festas desse ano.
Estreado em Outubro de 1978 na colectividade Sociedade Euterpe União Penedense (Penedo, Colares).
Filme concorrente ao FICA-Festival Internacional de Cinema de Amadores de Guimarães de 1978. A Câmara Municipal de Sintra adquiriu também duas cópias deste filme para o seu arquivo municipal (das quais se desconhece actualmente o seu paradeiro).
A realização deste filme levou à realização de uma pesquisa sobre as festas do Espírito Santo, que viria a ser publicada no “Jornal de Sintra” em Jul.1981. O filme seria estreado em Outubro de 1978 na colectividade Sociedade/Tuna União Euterpe Penedense.


Imagens (ordem descendente): 1 e 2 - Filmagens de "Festa na aldeia do Penedo", Jun.1980 + 3 - Folha de apresentação e apoio ao filme "Festa na aldeia do Penedo"


DIA A DIA A LIBERTAÇÃORodado em 1978 e montado em 1979, P&B e Cor, 30 minutos
Reportagem efectuada em Março de 1978 no Sahara Ocidental, por ocasião das comemorações do 2.º aniversário da sua independência, decretada pela Frente Polisário. Foi realizado na sequência de um convite feito pelo Comité Português de Apoio à Frente Polisário.
Participou no concurso da Federação Portuguesa de Cinema e Audiovisuais no Cine Clube no Porto (1979), sendo galardoado com um dos três prémios individuais atribuídos.
Imagens (ordem descendente): 1 - Fotograma do filme "Dia a dia a libertação" + 2 - Autocolante do Comité de Apoio à Frente Polisário
CARTA A MINHA MÃE1979, P&B, 20 minutos
Ficção documental sobre a migração para os grandes centros urbanos e o alojamento nos bairros de lata.
Parte do material foi rodado em 1974 e projectado sem som com o título “Vítimas do Capitalismo – Casas Sim Barracas Não”. Participou no FICA-Festival Internacional de Cinema de Amadores de Guimarães de 1979.
Imagens (ordem descendente): 1, 2 e 3 - Filmagens de "Carta a minha mãe", estação CP de Sabugo, 1979 + 4 - Plano para filmagens de "Carta a minha mãe", 1979




A ROMARIA DOS CAMPONESES1976/198(?), Cor, 14 minutos
Trabalho de ficção etnográfica realizado sobre romaria da região de Óbidos (romaria de Santo Antão).
Parte das imagens foram colhidas em 1976. Participou em festival em Santarém.

PRIMEIRO DE MAIO A PRETO E BRANCO1977(?), P&B, 22 minutos
Remontagem do filme “Primeiro de Maio na Vila”.

ERAM A LUZ1979(?), Cor, 10 minutos
Remontagem do filme “Por Cada Camarada Morto Mil se Levantarão”.

O HOMEM PAGÃO E RELIGIOSO
1980, P&B, 23 minutos
Remontagem do filme “Festa na Aldeia do Penedo”, acrescida de novas imagens recolhidas nas festividades de 1980.

A BEM DO POVO
1980, P&B, 17 minutos
Remontagem do filme “Flores e Sossego”.
Participou no FICA-Festival Internacional de Cinema de Amadores de Guimarães de 1980.
A música da banda sonora do filme é a canção “Liberdade” de Sérgio Godinho (“…A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação…”), do disco “À Queima-Roupa”.


VISITA DO PARTIDO DO TRABALHO DA ALBÂNIA/COMÍCIO DO PCP(R)
1977/1979, Cor, (?)
Reportagem da visita a Portugal de uma delegação do Partido do Trabalho da Albânia em 1977, oferecido pelo autor ao PCP(R).

Imagens (ordem descendente): 1 - Emblema da Albânia oferta dos elementos do PTA aos membros da equipa de cinema + 2 - Filmagens de "Visita do PTA", túmulo de Militão Ribeiro, Marinha Grande, Abr.1977 + 3 - Autocolante do II Congresso do PCP(R) + 5 - Cartaz, idem




POLUIÇÃO NO ALVIELA1977/198(?), P&B, (?)
Documentário sobre a poluição no rio Alviela junto à povoação de Pernes e a luta dos seus habitantes.
O filme serviu de suporte a campanhas de sensibilização, nomeadamente organizadas pela CLAPA-Comissão de Luta do Povo do Alviela.
Como curiosidade, refira-se o facto das últimas filmagens terem ocorrido em sessão da CLAPA na qual participou Zeca Afonso (foto seguinte).
Imagens (ordem descendente): 1 - Filmagens de "Poluição no rio Alviela", II Encontro Regional dos Povos do Alviela, Pernes, Nov.1977 + 2 e 3 - Autocolantes da CLAPA-Comissão de Luta Anti-Alviela + 4 - Página da revista "A Urtiga" n.º 6, Jan/Fev.1979



Regista-se ainda a existência de material rodado em 16mm (essencialmente reportagens) que nunca foi montado, designadamente:

- Saída dos presos políticos da prisão de Caxias, Abril de 1974, P&B
- 1.º de Maio de 1975 e de 1976, Cor
- Dia do Campo em Lisboa, 1976, Cor (iniciativa política)
- Excursão a Serpa, 1976, Cor (igualmente uma iniciativa política).
Imagens: Fotografias da viagem para a Herdade da Lobata, Dez. 1976.


Existe ainda bastante material filmado no formato Super 8, formato utilizado pelo Marques antes de adquirir equipamento (caríssimo) de 16mm.




(Continua)

sábado, 18 de junho de 2011

Festival Silêncio - José Mário Branco e Camané

Na passada 4.ª feira, dia 15 de Junho, realizou-se no cinema S. Jorge a abertura do Festival Silêncio.

O excelente espectáculo de abertura levou a um dos palcos do S. Jorge José Mário Branco e Camané, acompanhados por José Peixoto, Carlos Bica e Filipe Raposo.

Apresentam-se de seguida algumas fotografias (de má qualidade) da autoria deste blogue; fotos "a sério" podem ser vistas em http://www.flickr.com/photos/ponto-alternativo/sets/72157626850719075/show/.


Reproduz-se de seguida um retrato fiel do espectáculo, da autoria de António M. Silva, extraído em http://pontoalternativo.com/reportagem/2011/musica-de-palavras-jose-mario-branco-no-festival-silencio:

Celebrar o Silêncio com a Palavra, pode parecer contraditório, paradoxal até. Mas precisamos de muitas palavras, ditas, escritas, contadas e recontadas, gastas até à exaustão para sabermos dar valor ao Silêncio. Precisamos de palavras agora apenas cunhadas e impressas, já raramente ouvidas por vozes materiais para nos apercebermos que muito do que foi escrito e dito há muito tempo, é agora apenas e só Silêncio. Reavivar a palavra escrita, fazer dela canção e vida, torná-la propósito, era uma tarefa árdua que podia apenas recair em alguém que sempre andou de braço e espírito ligado tanto com a palavra escrita, como a palavra dactilografada.

Cantar poetas, os grandes poetas como Luís de Camões, Fernando Pessoa ou Sophia de Mello Breyner pode ser uma tarefa hercúlea, atrevo-me até a dizer solene. Por isso caiu bem a entrada feita a ritmo de pêndulo, lenta. Talvez porque, afinal, o caminho faz-se caminhando. Comandado pelo contrabaixo enorme de Carlos Bica, ritmado pelo piano de Filipe Raposo e acompanhado pela guitarra de José Peixoto, José Mário Branco declamava mais do que cantava e dava uma atmosfera densa à sala, cheia que nem um ovo. Talvez por esperarem uma apresentação mais leve, sentia-se o pulsar conjunto da sala, uma estranheza vívida e clara de quem esperava um poeta romântico e não um poeta negro. O primeiro passo – e o mais grave – estava dado.

A partir daí, as coisas mudaram e pareceram mais fáceis. Bom, pelo menos para a generalidade do público, que parecia lidar melhor com as evocações que permitiam arranjos mais leves e até coloridos. José Mário Branco, esse venerável declamador, permanecia como encarnação da antítese total deste festival. As décadas de experiência a debitar e a escrever palavras como ninguém, dão-lhe margem para subir a um palco, beber os aplausos revigorantes – que chegavam de várias gerações ali presentes – e atirar-se de cabeça a mais um tema.

Elegantemente acompanhado por um trio de luxo – impõe-se uma vénia a Carlos Bica, José Peixoto e Filipe Raposo –, era já visível que a aposta estava ganha. Podia não ter corrido tão bem assim; afinal, Fernando Pessoa morreu há já 90 anos e tentar reflectir com tremenda distância temporal a alma de um desconhecido conhecido apenas pelas suas palavras, podia ser difícil. Não foi. Tanto não foi que Zé Mário se atreveu a atirar ao público um ‘Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades’ tocado em tons de fuga desarmante. Por entre ilustres poetas (e fingidores), que estão agora calados, este atrevimento sabe como, se me permitem, uma manobra de ousadia que parece dizer «Então e eu também não sou poeta, pá?» e que, admitamos, lhe fica bem.

«Obrigado», foi o máximo que se ouviu do cantor. A humildade – timidez, ou pressa, mas preferimos pensar que foi humildade -, não o deixou dizer muito mais que estas palavras de agradecimento. Por isso não foi de estranhar a sua saída rápida de palco, discreta e pelo breu, de forma a dar lugar a Camané.


Goste-se ou não se goste, o lisboeta carrega com todo o mérito o epíteto de melhor fadista português da sua geração. A voz grave, aveludada e descontraída de Camané conquistou o São Jorge de imediato, rendido à apresentação deste género só nosso – e que, diga-se, está mais que habituado a cantar outros poetas. Escolheu bem, Camané, todos os poemas que cantou. Fê-lo com brio, dedicação e sentimento e mereceu os fortes aplausos que recebeu enquanto esteve sozinho em palco.


«É um intérprete único, soberbo e canta como ninguém», viria a dizer José Mário Branco, antes de atirar com um «é um prazer estar em palco com ele. Obrigado». Findos os extensos aplausos, ‘Inquietação’ irrompia pela Sala 1 do São Jorge não só com a voz do seu autor de sempre, mas também com os tiques de fadista de Camané. Um dueto que foi tremido, talvez pelo desconforto do fadista, mas que nos deixava a desejar outra oportunidade. E ela veio: o Canto I dos Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, poeta e obra-mor de Portugal, descontruídos minuciosamente e reconstruídos sob a égide do hip-hop debitado a todo o vapor por José Mário Branco, com um refrão que respirava funk e rockabilly por todos os poros. Esta quase heresia de transformar as palavras desse poeta herói em exercício musical vai perdurar na memória. O resultado era o esperado: aplausos e mais aplausos, vindos de uma sala totalmente em pé e a emanar calor.

Mais, só depois de uma curta pausa e para encerrar o concerto de forma definitiva. Precedido de uma curta projecção, o encore haveria de consistir em mais três exercícios musicais e em extensos agradecimentos de José Mário Branco, que foram dos músicos ao engenheiro de som. Para levar para casa, de tão intenso que foi, fica o primeiro tema. Lúgubre, negro, desconfortável, o arranjo criado por três dos músicos mais criativos que aquela sala já viu, soava à marcha industrial dos Current 93. E podíamos cair na tentação de dizer que José Mário Branco parecia David Tibet, mas não. José Mário Branco, depois de ter sido tanta gente, tantos fingidores, foi apenas e só igual a si mesmo.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

25 de Abril - cartazes

Nos 37 anos do 25 de Abril, apresentamos alguns cartazes alusivos retirados dos nossos arquivos.
Sobre os cartazes do 25 de Abril de 1974 existem (pelo menos) dois livros muito completos, dos quais retiramos a autoria de alguns dos cartazes apresentados:

- DIÁRIO DE NOTÍCIAS - 25 de Abril, 30 Anos, 100 Cartazes. Lisboa: Diário de Notícias, 2004. ISBN 972-99210-0-8
- FREITAS, José Gualberto de Almeida - A Guerra dos Cartazes. Lisboa: Lembrabril, 2009. ISBN 978-989-20-1555-2



    João Abel Manta, s/ data - 355mm x 515mm




    Vespeira, s/ data - 340mm x 480mm


    João Abel Manta, s/ data - 450mm x 640mm


    João Abel Manta, s/ data - 330mm x 330mm




    Vespeira, s/ data - 290mm x 412mm





    335mm x 483mm



    Sérgio Guimarães, 1974 - 240mm x 340mm




    Por último um calendário de bolso do "ano quente" de 1975:





    60mm x 102mm