terça-feira, 25 de abril de 2017

25 de abri de 2017 em Grândola

As celebrações do 43.º aniversário do 25 de abril em Grândola decorreram com a "obrigatória" grandiosidade, ou não fosse esta a "Grândola Vila Morena" cantada por José Afonso, senha da revolução.
Imagens das comemorações na noite de 24 de abril, ocorridas junto ao Complexo Desportivo Municipal José Afonso:




 Já no dia 25 de abril as "comemorações populares" foram levadas a cabo pela Junta de Freguesia de Grândola e Santa Margarida da Serra no jardim central:

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O início da espeleologia em Sintra (1971 – 1977)

(as pequenas guerras)

15.nov.1971 – É fundado o Espeleo Clube de Sintra (ECS), por Alexandre Morgado, Manuel Mourato Vermelho e Francisco Páscoa de Oliveira
03.abr.1972 – Entrega dos estatutos do ECS no Ministério da Educação Nacional, pela Comissão Organizadora
23.set.1972 – É fundado o Centro Especial de Exploração Subterrânea (CEES), por Francisco Páscoa de Oliveira, Joaquim Pitorro e Mário Coruche
19.out.1972 – Constituídos os primeiros Corpos Gerentes do CEES
20.dez.1972 – O CEES passa a funcionar com uma Comissão Organizadora
Março.1973 – O CEES passa a reunir quinzenalmente no Café Piriquita (Sintra)
04.abr.1973 – 1.ª Assembleia Geral, extraordinária, do ECS, para eleição dos Corpos Gerentes (não foram, posteriormente, sancionados pelo Ministério da Educação Nacional, por alguns membros serem menores)
11.abr.1973 – Constituição notarial do ECS
Junho.1973 – O ECS aluga sede na Rua José Bento da Costa, lote 35 cv esq, Portela de Sintra
12.jun.1973 – É publicada a aprovação dos estatutos do ECS, em Diário do Governo III Série
07.abr.1974 – É apresentada pela Comissão Instaladora do ECS uma nova lista de Corpos Gerentes para homologação pelo Ministério da Educação Nacional
11.maio.1974 – Assembleia Geral, extraordinária, para eleição de novos Corpos Gerentes, convocada pela Comissão Organizadora do ECS
22.mai.1974 – Reunião da Comissão Organizadora do CEES, e reinício das atividades deste clube
19.set.1974 – Reunião de sócios do ECS decidindo-se suspender o tesoureiro do clube
26.set.1974 – É fundado o Núcleo de Espeleologia de Sintra (NES), que passou depois a designar-se por Associação dos Espeleólogos de Sintra (AES)
Dezembro.1974 – O ECS cessa o arrendamento da sede, na Portela de Sintra
1975 – 1976 – A AES efetua cerca de 68 atividades de exploração
Janeiro.1977 – Comissão organizadora da AES reunia semanalmente na residência do Dr. Jorge Branco, na Portela de Sintra
17.fev.1977 – Constituição notarial da AES por Jorge Branco, Valdemar Tomás e Mário Coruche (Diário da República III Série, de 26.mai.1977); a AES tinha sede na Av. Movimento das Forças Armadas, 48 – 2.º dto, Sintra
16.abr.1977 – Assembleia Geral extraordinária do ECS, sendo aprovada por unanimidade a extinção do clube e sendo todos os seus bens e fundos oferecidos à AES
15.jun.1977 – Legalização da AES no Governo Civil de Lisboa
02.jul.1977 – Eleição dos primeiros Corpos Gerentes da AES
1.       O nascimento
O Espeleo Clube de Sintra (ECS) foi obra de Alexandre Morgado, jornalista ligado aos meios do Estado Novo, e que o fundou a 15.nov.1971.
Alguns sócios desavindos resolveram fundar um outro clube, o Centro Especial de Exploração Subterrânea (CEES) a 23.set.1972. Mas o arrendamento de sede pelo ECS, em junho de 1973, e a aprovação dos seus estatutos pelas autoridades do regime trouxeram de novos esses sócios ao ECS.

       2.       O 25 de abril
A 07.abr.1974 era por Alexandre Morgado apresentada uma lista de Corpos Gerentes para ser homologada pelas autoridades.
Mas a 25 de abril o regime autoritário caiu e a influência de Alexandre Morgado terminou.
A 27 de abril ainda estava na sede a discutir o rasgar da sua foto por Pedro*, que Manuel* presenciara, após o que João* e Manuel* propõem a expulsão de sócio de Pedro*. Este acaba por não sofrer outra sanção que não seja ser obrigado a mandar fazer nova amplicópia 30x40 igual à que rasgara (na sala de reuniões estava pendurado quadro com a fotografia do fundador…). Decidiu-se ainda, naquele sábado, marcar uma Assembleia Geral extraordinária para 11 de maio, quinze dias depois.
A 2 de maio, Alexandre Morgado, pela Comissão Organizadora do ECS, convoca realmente uma AG extraordinária para 11 de maio, pelas 21h30, com a eleição de novos Corpos Gerentes na Ordem de Trabalhos.
As coisas precipitam-se, no entanto. De 6 para 7 de maio, a altas horas da noite, Alexandre Morgado e João* retiram da sede os pertences do primeiro enquanto Luís* fica “de guarda” à porta do prédio. A 7 de maio é distribuída aos sócios presentes na sede uma convocatória anónima marcando para 11 de maio, pelas 15h00, uma Reunião Geral de Sócios que incluía na Ordem de Trabalhos a apreciação de proposta para demissão imediata do Presidente da Comissão Instaladora e eleição de uma Comissão Administrativa transitória.
A 11 de maio, durante a tarde, Alexandre Morgado faz sucessivos ofícios ao Director-Geral dos Assuntos Culturais (que antes autorizava a existência de associações culturais), ao senhorio da sede, ao fiador do arrendamento e ao Presidente da Câmara Municipal de Sintra, avisando que deixaria nessa noite de ser responsável pelo clube. Às 18 horas termina um Relatório das Actividades do ECS desde a sua fundação. Nessa noite, com 27 sócios presentes, são votados o Presidente e Vice-Presidente da Direcção, os restantes lugares sendo consensuais. Por 14 votos contra 13, Carlos Galrão é presidente e Francisco Páscoa vice-presidente. Começou aí nova divisão entre os espeleólogos sintrenses.
A 17 de maio, Alexandre Morgado demite-se de sócio do ECS e a 22 de maio o CEES reinicia as suas atividades reanimado por Mário Coruche, tesoureiro do ECS, e que a 19 de setembro é suspenso deste clube. A 26 de setembro Mário Coruche funda o Núcleo de Espeleologia de Sintra (NES), que depois passará a Associação dos Espeleólogos de Sintra (AES), e que irá polarizando as atividades e aderentes enquanto o ECS definhava. Em dezembro de 1974, sem capacidade sequer de pagar o arrendamento da sede, o ECS deixa de ter sede arrendada e os seus sócios, progressivamente integrados nas atividades da AES, acabam por decidir por unanimidade a extinção do ECS em Assembleia Geral de 16 de abril de 1977.
3.       O crescimento
A AES prosperou, inicialmente sob a tutela administrativa de Mário Coruche e uma direção científica de Jorge Branco. A Associação ainda hoje existe, em 2016.
Desde os anos setenta do século XX, em que a ditadura que então dominava Portugal confinava os jovens a associações vigiadas e dirigidas autocraticamente, até aos anos inicias deste século XXI, esta vertente associativa científica sempre teve pequena expressão na sociedade sintrense. Por ela passaram, no entanto, alguns jovens brilhantes e que foram, naturalmente, tomando o seu lugar na sociedade.
Cerca do ano 2000, a AES integrava um viveiro de jovens preparando teses de mestrado, especialistas em biologia, formadores de escalada em parede na Escola Nacional de Bombeiros, debruçando-se sobre a vanguarda do conhecimento e técnicas do momento, tudo isto com sede numa garagem, dividida a meio por uma cortina. No fundo da garagem, o equipamento, e, à entrada, uma dúzia ou duas de jovens universitários trocando informações e experiências e planeando trabalhos.
Depois, a AES conseguiu instalações na Quinta da Regaleira. Um laboratório de investigação sobre morcegos, online, com partilha vídeo de uma comunidade de morcegos para todas as entidades científicas, através da internet, a prestação de serviços científicos de sua especialidade para todo o país, autarquias e empresas privadas. Esta fase, outros a poderão descrever melhor!
Bom trabalho, camaradas!

4.       Algumas personagens
Das personagens dos tempos iniciais, poucos testemunhos posteriores tenho.
Alexandre Morgado dava notícias ameaçadoras de vez em quando. Surgiu ali, apareceu acolá, telefonou, deixou recado… Sempre sob um manto nebuloso, que era espião, voltara do estrangeiro… Um encoberto.
Ao contrário, Jorge Branco era a luz. Morava por cima da sede do ECS, e a esposa batia com o cabo da vassoura no chão da cozinha, altas horas, para protestar pelo barulho que fazíamos. Um dia, anos noventa, andava eu a escarafunchar no depósito de publicações reservadas da Biblioteca Municipal de Estremoz, vi-o calmamente a ler numa mesa da biblioteca. Tinha comprado um terreno em Estremoz, 2 filhos, era Presidente da Assembleia Municipal de Estremoz.

O Pedro* era do meu círculo próximo. Aquando do 30 de setembro de 1974, desembarcámos na estação ferroviária do Algueirão, sempre altas horas da noite, as paredes anunciando que tinham apanhado dezenas de capacetes e cacetes à reação. Não resisti a comentar a situação na beira de um dos cartazes. Vieram os donos dos cartazes, correria, no dia seguinte soube que o Abílio e outros MJTs tinham apanhado o Pedro* a caminho de casa. Houve muita lábia, uns sopapos, acabámos por ficar nos ficheiros do PC. O que nos não impediu de lá ir à sede, na tarde do 11 de março de 1975, saber novidades, e, perante alguma falta de direção local, organizarmos a feitura de cartazes contra a reação, o fecho dos supermercados da terra, um fartote; quando os controleiros voltaram de Lisboa, raspámo-nos ordeiramente, como diria agora o Jorge Palma: “com todo o respeito”. O Pedro* licenciou-se em geologia, 3 filhos maravilhosos, às tantas fartou-se da capital e foi para a província. Já neste século XXI, apareceu por aqui, reformado. E depois estava numa aldeia em Trás-os-Montes. E em Essaouira, em Marrocos (“Apareçam cá, porra! Aluguei uma casa que só lhe falta água; tem eletricidade, tem net, tem tudo.”). Um dia, mail para cá, mail para lá, descobri que nas minhas deambulações pelo Alentejo passara a 300 metros dele, em Melides (“Cabrões! Passam aqui na estrada e não dizem nada a um gajo. Custava alguma coisa?”). Mais conversa, que vida de cigano era aquela, acaba por confessar que na aldeia onde vivera acabara por dar uma patada ao Presidente da Junta de Freguesia.
— E então?
— Olha, o juiz condenou-me a pagar-lhe 1.200€.
— Caneco. Lá por isso fazemos uma coleta entre a malta e pagamos ao gajo.
— Nem pensar! Isso também os meus filhos queriam… O gajo nunca vai ver nem um tostão meu. Era bom, era!

Carlos Galrão
Mem Martins, 21.jan.2017



Notas:

* - Nomes fictícios.

A oportunidade de elaboração deste texto deve-se ao estimado Dr. Hermínio Santos, que se encontra a ultimar (mais) uma publicação sobre Sintra, onde abordará, entre muitos outros aspetos, as associações de espeleologia desta vila.
Foi a propósito dessa publicação que o Dr. Hermínio Santos nos contactou, o que impulsionou a recolha e sistematização pelo Carlos Galrão deste texto que agora se publica.
Vítor Reis
Algueirão, 31.jan2017.

Gruta da Assafora, jan.1974

Próx. Gruta de Colaride, set.1974



Gruta de Alvidrar, jul.1975 
(in "Serra de Sintra Passeios Pedestres". Carlos Galrão e Vítor Reis. Edit. Abril: 1981)    

                                    Gruta de Alvidrar, jul.1975                                    

Adraga, jul.1978